Você já ouviu falar de “ansiedade climática”?

 Você já ouviu falar de “ansiedade climática”?

Fonte: https://earthobservatory.nasa.gov/images/153523/ozone-hole-continues-healing-in-2024

Você já ouviu falar de “ansiedade climática”? Não é um novo tipo de ansiedade, é a mesma de sempre, mas com um motivo específico e já com linhas de pesquisa dedicadas. Essa é causada pela percepção da crise climática que estamos vivendo e é cada vez mais comum.

Apesar de nem sempre receber esse nome, você já deve de alguma forma ter ouvido falar dela. Jovens repensarem a decisão de ter filhos porque “o mundo está acabando” é um exemplo bem característico. Mas não se restringe a isso, os principais sentimentos causados pela crise são também medo, tristeza, culpa e vergonha. O que isso significa?

Por que ansiedade é uma resposta comum a essa questão?

Um dos principais problemas de se lidar com a ansiedade climática é que a crise climática em si tem muitas características que impulsionam a ansiedade. Para começar, vamos falar de um contra exemplo. Lembra da história do CFC e da camada de Ozônio? Era um problema ambiental sério e global, mas pareceu muito mais simples de lidar. E porque foi. Até 2040 se espera que a camada se recupere à condição dos anos 1980.

Isso porque era um problema concreto bem definido e fácil de comunicar, com motivos claros e solução coletiva simples: geladeiras e aerossóis com CFC liberavam químicos no ar que degradavam a camada de ozônio, expondo todas as formas de vida na terra a altos índices de UV e suas consequências, como câncer de pele nos humanos. Por isso, os consumidores deveriam evitar produtos com CFC e os fabricantes precisavam substituir esses químicos por outros mais sustentáveis até 2010.

Então, por que o aquecimento global é diferente? Porque os motivos do aquecimento são diferentes atividades humanas; a culpa pela situação e a responsabilidade pela reparação é passada de um país para outro; grandes empresas usam seu poder de influência e comunicação para pressionar governantes e confundir o consumidor, que não sabe quem cobrar nem como deve fazer sua parte, por isso facilmente resiste também a mudanças mais profundas no seu estilo de vida. Assim, com todos os elementos da crise difusos, o que resta para população em geral é medo das consequências já presentes, insegurança e ansiedade com o futuro.

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Linhas de pesquisa

IMG_5841-300x300 Você já ouviu falar de “ansiedade climática”?
Julian Manley, pesquisador e diretor de um centro de tratamento psicológico na Inglaterra

Essa é a linha de pesquisa de Julian Manley, professor de inovação social da Universidade de Central Lancashire (Reino Unido), que participou como pesquisador visitante do desenvolvimento do projeto Abordagens Psicossociais e Históricas de Sociedades em Situação de Crise, iniciativa coordenada pela professora Neri de Barros, da Unicamp. Manley é diretor de um centro voltado para o tratamento de questões emocionais e psicológicas relacionadas com a crise climática.

Então, já se sabe que quanto maior a falta de entendimento da situação e perspectiva, maior a sensação de impotência que leva à paralisia e ansiedade. Por se tratar de uma crise global e sistêmica, também vai requerer soluções globais e sistêmicas. Segundo Manley, parte da superação consiste em abandonar a dinâmica de polarização ideológica: conservadores x progressistas. Essa lógica cria uma ilusão de “nós x eles” que impede a busca por meios-termos.

Além disso, as dinâmicas polarizantes distraem o debate de suas questões mais centrais, que são a definição do problema em si. Há décadas, os estudiosos do clima já alertam para as consequências do estilo de vida e consumo que praticamos. Desde o início o apelo é o mesmo: pela diminuição do consumo de combustíveis, de plástico, de carne, de energia. Sob o pretexto de que a economia não se aguentaria com a proibição de derivados do petróleo de uma hora para outra, nenhuma transição foi iniciada. Até agora.

Comunicação de sustentabilidade

Ainda assim, “metas 2030”, “carbono zero 2050”, “ESG” são termos que carregam significado apenas para uma pequena parcela da população. Isso serve a quem? A quem interessa que o público em geral não compreenda o que precisa ser feito? A quem interessa descredibilizar estudiosos que dedicaram toda sua carreira a estudar a crise que apenas começamos a atravessar?

Por um lado, claro que é correto fechar a torneira enquanto escova os dentes e lavar a calçada com balde. Mas você sabia que a indústria e agricultura somam quase 90% de todo o consumo de água mundialmente? Esse é só um exemplo de que, mais importante do que a gente faz em casa, é como tudo aquilo que a gente compra foi produzido. Principalmente num país com tanta pobreza e desigualdade com o Brasil, não se pode esperar que o consumidor vá fazer a escolha de compra mais sustentável e pagar mais caro.

Soluções coletivas

Outro fator crucial para lidar com a crise é o desenvolvimento da cooperação e do senso de pertencimento. Essa proposta visa o engajamento de todas as partes da comunidade de forma que cada um faça o que pode para contribuir. Dessa maneira, a cooperatividade das comunidades impulsiona o senso de responsabilidade, comportamento necessário para se ter cidades e países mais sustentáveis. Isso significa se opor à noção individualista e competitiva do sistema socioeconômico capitalista vigente, por algo mais coletivo e colaborativo.

Na prática, é preciso tomar decisões mais corajosas coletivamente; porque, quando a maioria se exime de se posicionar e demandar, os poucos que ainda lucram com a exploração exaustiva dos recursos e proliferação de resíduos seguem escolhendo por manter a situação como está. No início de cada revolução industrial, de cada reforma trabalhista, sempre houve uma propaganda alarmista de destruição de empregos e economias. Do outro lado delas, o que se atingiu foram avanços tecnológicos, melhores condições de vida e novos empregos mais dignos.

Então se engajar em movimentações populares que reivindicam os interesses coletivos, escolher representantes políticos que defendam o desenvolvimento sustentável e se organizar com outras pessoas que também estão lutando pela mudança é a melhor forma de retomar a sensação de pertencimento e potência, além de se livrar da culpa e vergonha que só realimentam a paralisia. Porque a ansiedade climática é uma questão de saúde coletiva, o tratamento também precisa ser coletivo.

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Fontes:

A camada de Ozonio segue se recuperando em 2024. Disponível em:<https://earthobservatory.nasa.gov/images/153523/ozone-hole-continues-healing-in-2024>. Acesso em: 25 de agosto de 2025.

Ansiedade climática: sintoma de um mundo em colapso. Disponível em:<https://jornal.unicamp.br/edicao/713/ansiedade-climatica-sintoma-de-um-mundo-em-colapso/>. Acesso em: 25 de agosto de 2025.

Como transformar a fadiga de apocalipse em ação no combate ao aquecimento global. Disponível em:<https://www.youtube.com/watch?v=F5h6ynoq8uM>. Acesso em: 25 de agosto de 2025.

Facts and figures on the state of the world’s freshwater resources from the 2024 UN World Water Development Report: Water for Prosperity and Peace. Disponível em: <https://www.unesco.org/reports/wwdr/en/2024/s#:~:text=Water%20demand%20and%20use%20*%20Worldwide%2C%20agriculture,of%20the%20freshwater%20withdrawn%20for%20domestic%20purposes>. Acesso em: 25 de agosto de 2025.

Ana Carolina Bernardes

Apaixonada por linguagem e textos. Só a palavra pode nos levar aonde queremos chegar. Revisora freelancer e redatora do Jornal A Borda.

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