Violência contra a mulher adoece o corpo, a mente e a cidade.

 Violência contra a mulher adoece o corpo, a mente e a cidade.

Por Fernanda Matos

No consultório da UBS do Jardim Rochdale, uma mulher de 37 anos chega com queixas que vão muito além do corpo, dores no peito, insônia, crises de ansiedade. Ela conta que mal consegue comer ou cuidar dos filhos. Aos poucos, entre palavras e silêncios, revela o que carrega escondido, a violência que vive dentro de casa.

Essa história, sem rosto, sem nome, se repete em Osasco, na capital e em todo o Brasil. Mulheres de todas as idades, de bairros distintos, com rotinas diferentes. O que elas têm em comum é o peso invisível da violência que corrói corpo e alma.

A violência que não sangra também mata.

A cada segundo, uma mulher é vítima de violência física, sexual ou psicológica no país. Em 2024, mais de 27,6 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso não é acaso, é uma falha estrutural.

A violência doméstica não se esgota em gritos, tapas ou ameaças. Ela se esconde no olhar vazio no posto de saúde, nos prontos-socorros lotados, nas receitas de antidepressivos e nos exames que não revelam o que o corpo tenta denunciar. O sintoma é emocional, mas se manifesta fisicamente, e o medo cala, aprisiona, adoecendo.

A Organização Mundial da Saúde reconhece a violência de gênero como uma emergência de saúde pública. Mulheres violentadas têm maior risco de depressão, ansiedade, transtornos alimentares, doenças cardíacas, dores crônicas e até câncer. E essa violência é ainda mais cruel quando atravessa cor e classe social: 6 em cada 10 vítimas são mulheres negras.

O SUS é a linha de frente onde o Estado não alcança.

“Aqui, a gente vê o que não aparece na delegacia”, explica uma psicóloga da zona norte. “Mulheres chegam com dor física, mas seu emocional está em colapso. O corpo denuncia o que elas ainda não conseguem dizer em palavras.”

Dados do Ministério da Saúde mostram que 7 em cada 10 casos de violência contra mulheres registrados em unidades de saúde ocorrem dentro de casa. Mas o sistema não está preparado para essa realidade. Falta formação para que os profissionais reconheçam a violência como parte do quadro clínico. Faltam psicólogos, espaços de escuta e políticas públicas efetivas de acolhimento.

No lugar de cuidar, o Estado muitas vezes apenas responde, e nem sempre responde direito. Em Osasco, a ausência de dados atualizados sobre violência de gênero revela um abandono silencioso. O que não se mede, não se enfrenta. Onde faltam políticas, cresce o vazio do abandono.

Saúde, cuidado e política.

Os números de São Paulo ajudam a dimensionar o problema.Em 2024, foram 97.434 boletins de ocorrência por ameaça contra mulheres no estado, o equivalente a uma denúncia a cada cinco minutos. Mas e as que não denunciam? E as que só procuram o posto, o CRAS, a conselheira da comunidade?

Nos bairros periféricos, onde a polícia chega depois do sangue derramado e onde a mulher não confia no Estado, o posto de saúde é muitas vezes o único espaço de escuta. Por isso, pensar saúde pública é também pensar na resistência. Cada consulta que acolhe, cada psicólogo que ouve, cada agente de saúde que orienta é uma fresta de cuidado em um sistema estruturado para silenciar.

A cidade também adoece.

Violência contra a mulher não é problema individual. É sintoma de um projeto de sociedade onde corpos femininos e negros são descartáveis. Uma mulher violentada não adoece sozinha, seu sofrimento atinge filhos, vizinhos, comunidade. A cidade encolhe. O futuro também.

Enfrentar a violência é mais do que aplicar protocolos, é democratizar o cuidado. É garantir que as UBSs tenham estrutura, que os dados sejam públicos, que as políticas de saúde, assistência e segurança conversem. Que as mulheres saibam que têm direitos e possam exercê-los sem medo.

Porque mais do que curar feridas, é preciso garantir que elas não se abram.

Onde buscar ajuda em Osasco:

  • Delegacia da Mulher
    Rua Minas Bogasian, 240 – Centro
  • Centro de Referência da Mulher “Maria Maria”
    Atendimento psicológico, social e jurídico
  • UBS mais próxima
    Atendimento médico e psicológico gratuito pelo SUS
  • CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social
    Acolhimento e orientação para mulheres em situação de violência
  • Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher (24h, gratuito e sigiloso)
  • Disque 100 – Denúncias de violações de direitos humanos
  • SAMU 192 – Emergência médica

Fontes:

  • Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025
    https://forumseguranca.org.br
  • Agência Brasil, 2025
    https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos
  • Organização Mundial da Saúde – Relatório Global de Violência, 2023
    https://www.who.int/publications/i/item/9789241564007
  • Pesquisa “Violência Doméstica e Familiar”, Ministério da Saúde, SINAN 2024
    https://www.gov.br/saude
  • Dossiê Violência Contra a Mulher – Instituto Patrícia Galvão
    https://www.generonumeros.org.br
  • Fiocruz – Saúde e violência de gênero, 2024
    https://portal.fiocruz.br

Fernanda Matos Oliveira

Redatora

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