Por que esperamos a grande felicidade?

 Por que esperamos a grande felicidade?
Jornal a Borda

A busca pelo significado da vida é uma necessidade humana fundamental e está diretamente ligada ao bem-estar psicológico, à saúde física e à construção da identidade. Estudos em psicologia mostram que experiências intensas — de alegria ou dor — ajudam a dar propósito à existência, fortalecem vínculos sociais e contribuem para uma vida mais coerente e satisfatória.

A busca humana por significado

Desde os primórdios, o ser humano tenta compreender a própria existência. Esse impulso vai além de sistemas filosóficos ou religiosos e se manifesta na procura por experiências profundas: na arte, na natureza, no amor, no autoconhecimento, nas conquistas e até nos sacrifícios.

Esses momentos singulares — chamados por alguns estudiosos de “experiências de pico” — funcionam como marcos pessoais. Eles organizam nossa trajetória em uma narrativa com coerência, propósito e identidade.

Psicólogos afirmam que a vida não pode ser percebida apenas como uma sequência automática de dias. Há uma necessidade interna de pertencimento — a uma comunidade, a uma causa, a algo maior que o indivíduo.

Por que precisamos de significado?

Pesquisas recentes reforçam o que tradições antigas já defendiam: ter propósito é essencial para a saúde mental e física.

Pessoas que enxergam suas vidas como significativas:

  • apresentam menor risco de depressão e comportamentos autodestrutivos;
  • constroem relações mais sólidas;
  • engajam-se mais em ações altruístas;
  • contribuem para maior coesão social.

Curiosamente, o significado não nasce apenas da felicidade. Experiências intensas — inclusive dolorosas — tendem a ser percebidas como ainda mais marcantes. A intensidade emocional funciona como gatilho para transformar acontecimentos em capítulos decisivos da própria história.

O sentido duradouro não depende de momentos superficiais de prazer, mas da combinação de três dimensões fundamentais:

  • sentimento de competência;
  • conexão com outras pessoas e com o mundo;
  • propósito claro e subjetivamente relevante.

O conceito de “experiências de pico”

O psicólogo Abraham Maslow definiu as “experiências de pico” como momentos de êxtase, realização máxima ou profunda conexão. Elas podem surgir em contextos diversos: contemplação da natureza, vivência artística, espiritualidade ou conquistas criativas.

Pesquisadores contemporâneos ampliam essa ideia e afirmam que tais experiências ajudam a redefinir — ou reafirmar — nossa identidade. Elas funcionam como âncoras existenciais, oferecendo direção em meio às incertezas da vida.

Sejam marcadas por alegria, transcendência ou até sofrimento, essas vivências despertam a capacidade de atribuir sentido à própria trajetória.

Dor, adversidade e crescimento

A busca por significado não se limita a momentos felizes. Traumas, perdas e crises também podem desencadear transformações profundas.

Estudos com jovens que passaram por situações traumáticas indicam que muitos relatam, após o sofrimento, uma espécie de “realização existencial”: revisão de valores, redefinição de prioridades e reconstrução da identidade.

Na perspectiva psicológica, a dor pode se tornar catalisadora de propósito. Decisões importantes, mudanças de vida e compromissos duradouros muitas vezes emergem de períodos de adversidade.

Por que esses momentos são tão desejados?

Três necessidades ajudam a explicar essa busca constante:

1. Necessidade de significado

A rotina pode gerar sensação de vazio. Sentir que a vida importa é essencial para o equilíbrio emocional.

2. Busca por transcendência e autorrealização

O ser humano deseja desenvolver seu potencial e conectar-se a algo maior que si mesmo.

3. Construção da identidade

Momentos significativos estruturam a narrativa pessoal, moldam valores e consolidam prioridades.

Além disso, essas experiências fortalecem vínculos sociais, ampliam a resiliência e alimentam a esperança coletiva.

A urgência do significado na era da superficialidade

Em um tempo marcado por excesso de estímulos e dispersão constante, cresce o risco de uma vida fragmentada e superficial. Nesse contexto, a busca pelo significado da vida torna-se quase vital.

Valorizar relações humanas, enfrentar desafios com intenção e cultivar experiências de profundidade emocional não é luxo — é necessidade psicológica. A ciência aponta que propósito e sentido não são abstrações filosóficas, mas pilares essenciais da saúde e da realização humana.

Em um mundo acelerado, encontrar significado pode ser o gesto mais revolucionário — e mais humano — de todos.

 

FONTES:

Barros, L. O.; Moreira, T. C.; Oliveira, D. A.; Noronha, A. P. P. (2021). Sentido de vida e satisfação com a vida: evidências em uma amostra brasileira. Revista de Psicologia da UFPR. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/psicologia/article/view/68813
Silva, A. B.; Guerra, V. M. (2024). Espiritualidade, sentido de vida e variáveis sociodemográficas: um estudo em população brasileira. Revista Psicologia em Pesquisa – UFJF. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/psicologiaempesquisa/article/view/37757
Moreira, V. & Silva, L. C. (2022). Sentido de vida: compreendendo este desafiador campo de estudo. Psicologia USP – Universidade de São Paulo. Disponível em: https://revistas.usp.br/psicousp/article/view/202644
Wikipedia contributors. Peak experience. Wikipédia, The Free Encyclopedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Peak_experience%5C.  Acesso em: 11 dez. 2025

Kamila Cristina Moraes

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