Jotapê propõe royalties nas batalhas de rima e reacende debate sobre valorização do freestyle

 Jotapê propõe royalties nas batalhas de rima e reacende debate sobre valorização do freestyle
Jornal a Borda

Rapper questiona a ausência de registro autoral nas batalhas e afirma que artistas deixam de receber grande parte da receita gerada pelo próprio improviso

O rapper Jotapê anunciou, em suas redes sociais, uma parceria que promete inovar o cenário das batalhas de rima ao defender a implementação de royalties nas batalhas de rima. Em vídeo publicado no Instagram na última semana, o MC destacou a necessidade de valorizar financeiramente a arte do improviso, prática comum nas batalhas e presente no cotidiano de quem utiliza metrô e trem em São Paulo. Com isso, ele impulsionou o debate sobre remuneração autoral entre artistas e público.

Todos os paulistanos que usam transporte público diariamente já viram, pelo menos uma vez, o “cara da rima” improvisando entre uma estação e outra. Nesse contexto, artistas transformaram as rimas no trem em forma de sobrevivência e respiro cultural e, ao longo do tempo, também passaram a utilizá-las como ferramenta de divulgação.

Entre as formas mais acessíveis de ganhar dinheiro com freestyle estão essas apresentações no transporte público e as premiações das batalhas. A tradicional “folhinha”, recebida após a vitória, costuma vir acompanhada de prêmios como descontos, produtos de patrocinadores ou valores em dinheiro.

A Batalha da Aldeia (BDA), uma das mais relevantes do país, premia o vencedor de cada edição com R$ 2.000,00. No entanto, apesar do valor expressivo, essa ainda não é a realidade da maioria das batalhas pelo Brasil.

O principal questionamento levantado pelo rapper guarulhense é direto: por que os MC’s de batalha nunca ganharam nada por suas rimas?

Royalties sobre rimas

Royalties são pagamentos feitos aos autores por cada utilização comercial de suas obras. Esse mecanismo garante que criadores sejam remunerados sempre que seu trabalho gera receita. Música, rima, texto, beat e vídeos estão entre as produções que podem receber remuneração a partir de seu uso.

Em menos de duas semanas, o vídeo publicado por Jotapê ultrapassou 2 milhões de visualizações no Instagram. Além disso, o tema rompeu a bolha do rap nacional e ampliou a discussão sobre a valorização do freestyle.

Segundo o MC, 70% de todo o dinheiro gerado a partir das batalhas simplesmente não existe por falta de registro como obra autoral. Isso acontece porque, atualmente, os pagamentos são feitos apenas pelo vídeo, e não pelo fonograma (registro sonoro da obra).

“Sem registro, sem fonograma. Sem fonograma, sem royalties.”

A visão de quem vive a cena

Kauan MC (@kauanmc95), um dos nomes mais experientes do freestyle brasileiro, começou rimando por hobby. Com o tempo, passou a ser convidado para abrir shows e a receber cachês, enxergando uma possibilidade real de carreira.

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Kauan MC, campeão da Liga dos MCs em 2013.

Hoje, consolidado no cenário, ele reconhece a importância das batalhas na trajetória de diversos MC’s e reforça a necessidade de valorização de quem movimenta cultura nas cidades.

“A imagem dos MCs roda muito dinheiro no YouTube, só que quem menos recebe são os próprios MCs […] Não vai ser uma revolução grande de começo, mas, pouco a pouco, isso pode ser mais rentável e as publicidades mais rentáveis a quem vive exclusivamente disso”, completou o rapper.

Os desafios para viver de arte

A sustentabilidade financeira ainda é um dos principais obstáculos para artistas independentes.

“As maiores dificuldades para quem vive de forma independente através da sua música é tornar rentável a sua arte ao ponto de você não passar necessidades durante o mês”, diz Kauan MC.

Outro desafio é a escassez de espaços para eventos culturais. Na segunda-feira (09), dia de Batalha da Aldeia, Bob 13, organizador da BDA, publicou no Instagram oficial da batalha a notificação extrajudicial que proíbe a realização de eventos musicais no local.

Atualmente, a Batalha da Aldeia acontece em Barueri, na Região Metropolitana de São Paulo.

“Não tendo muito espaço e não tendo eventos que comportem os artistas independentes, o trem acaba se tornando uma opção, primeiro para a sobrevivência e depois como forma de promoção cultural para a cidade”, completa Kauan MC em entrevista ao Jornal A Borda.

Luís Novais

Acredito na comunicação como instrumento de transformação social, conectando cidadania, esporte e ações sociais.

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