Por que designers, babás e outros profissionais seguem desvalorizados no Brasil
A desvalorização de profissões como designers, trabalhadores domésticos, babás, cuidadores e outros serviços essenciais não é um fenômeno recente — e tampouco simples. No Brasil, esse processo tem raízes profundas em aspectos culturais, históricos e estruturais. Mesmo sendo áreas que exigem técnica, responsabilidade e, muitas vezes, formação especializada, seus profissionais frequentemente lidam com propostas de permuta, salários baixos e acúmulo de funções. Para especialistas, essa desvalorização resulta de uma combinação entre informalidade, heranças escravocratas e a invisibilidade do chamado trabalho de cuidado.
A antropóloga Hildete Pereira de Melo, pesquisadora do trabalho doméstico na Universidade Federal Fluminense, explica que profissões ligadas ao cuidado — como babás e empregadas — foram historicamente tratadas como uma extensão do trabalho feminino dentro do lar, e não como ocupações profissionais. “Esse imaginário social ainda afeta a forma como as famílias remuneram e reconhecem esse tipo de trabalhadora”, afirma Melo, em entrevista ao Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (NEPeM/UFF).
A informalidade reforça esse cenário. Segundo dados do IBGE, cerca de 70% das trabalhadoras domésticas permanecem sem registro formal, mesmo após a aprovação da PEC das Domésticas, em 2013. Sem contratos, pisos salariais claros ou fiscalização efetiva, muitas famílias se sentem autorizadas a exigir que uma babá também cozinhe, limpe ou execute tarefas que vão muito além de sua função — um acúmulo que virou quase regra no setor.
Entre designers e outros profissionais criativos, a lógica não é tão diferente. Um levantamento do Comitê de Design da ABEDesign aponta que mais de 60% dos designers atuam como freelancers, sem garantias trabalhistas e vulneráveis a negociações precárias. A ideia de que “trabalhar com criatividade é um prazer” alimenta pedidos de permutas, descontos abusivos e a desvalorização de processos que envolvem pesquisa, técnica e uso de softwares especializados. Como observa a professora Gisela Castro, da ESPM, “o público costuma enxergar apenas o produto final — uma arte, uma logo, uma foto — e não o processo complexo que existe por trás”.
A dimensão histórica também pesa. Em O Trabalho Doméstico no Brasil, a socióloga Mirian Goldenberg lembra que a divisão social do trabalho no país sempre colocou as atividades domésticas e de cuidado no patamar mais baixo da hierarquia profissional. “Essa visão persiste e se reproduz, mesmo entre famílias das classes média e alta, que naturalizam a ideia de que o cuidado deve ser barato porque sempre foi barato”, ressalta Goldenberg.
Para especialistas, mudar esse cenário exige um conjunto de medidas: educação pública sobre direitos trabalhistas, fortalecimento de associações profissionais, regulamentação clara para atividades criativas e políticas que reduzam a informalidade. Até lá, designers, babás e tantos outros profissionais continuarão enfrentando um reconhecimento distorcido, em que serviços fundamentais para a sociedade ainda são tratados como favores ou tarefas secundárias.