Por Giovanni Paoli
A política de austeridade faz parte da história brasileira tal como o café, o açúcar e a escravidão fizeram no passado. Essa prática vem se repetindo durante décadas com o objetivo claro de defender o interesse da burguesia empresarial brasileira, e suas consequências são perceptíveis na precarização do trabalho e na piora das condições de vida da classe trabalhadora.
Na política, o termo austeridade se refere ao conjunto de medidas econômicas utilizadas pelos governos para reduzir déficits fiscais e conter o endividamento público. Segundo o discurso oficial dos governantes, essa prática ajudaria a combater a corrupção e a criar um ambiente econômico mais favorável para investimentos privados e geração de empregos. No entanto, na prática, essas medidas servem principalmente para inibir o investimento público em infraestrutura, saúde e educação, abrindo espaço para que os empresários lucrem com serviços privados frequentemente inflacionados e de qualidade duvidosa.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa política foi a aprovação da Emenda Constitucional 95, aprovada em 2016 pelo parlamento brasileiro após uma votação carregada de falta de representatividade. O teto de gastos, como ficou conhecido, atribuiu um limite para os gastos públicos, reduzindo a capacidade do Estado de investir em áreas estratégicas para a população. Por exemplo, o orçamento do Ministério da Saúde foi reduzido em 20% entre 2014 e 2019.
Essa política de austeridade teve impacto negativo imediato na vida do brasileiro. Já em 2017, o desemprego disparou, chegando a 13,7%, e o aumento da desigualdade de renda se tornou evidente, com o índice de Gini subindo de 0,515 em 2014 para 0,545 em 2019, refletindo o agravamento da concentração de riqueza no país.
Essas medidas interferem diretamente na sociedade em geral, mas é nas classes baixas que ela encontra o seu maior alvo. Inúmeros serviços sociais tiveram sua capacidade reduzida devido ao corte de investimentos, como no caso do SUS, que em 2019 perdeu aproximadamente R$ 1 bilhão de seu orçamento. Isso impactou diretamente a qualidade e a disponibilidade de serviços essenciais, como atendimento básico, medicamentos e equipamentos, além do fechamento de dezenas de unidades de saúde pelo país, comprometendo o acesso à saúde de milhões de brasileiros.
A educação pública também sofreu com a política de austeridade nos últimos anos. Em 2021, o orçamento do Ministério da Educação foi reduzido em 18%, impactando programas de merenda escolar, transporte e infraestrutura. O programa de educação integral, essencial para a reforma do ensino, teve cortes drásticos, levando à descontinuação do Mais Educação, que oferece atividades extracurriculares e reforço escolar em áreas periféricas.
Só na cidade de Osasco, a falta de investimento compromete praticamente todas as áreas essenciais da sociedade. As UBSs, que atendem principalmente a população de bairros periféricos como Rochdale, Jardim Cipava e Jardim das Flores, enfrentam escassez de medicamentos, equipamentos e profissionais. Assim como o Hospital Municipal Antônio Giglio, principal referência em saúde pública na cidade, que sofre do mesmo modo com dificuldades na manutenção e ampliação de serviços, resultando em filas longas e atendimento precário.
A habitação também é um problema grave enfrentado pela cidade. Após o corte de verbas para o programa Minha Casa Minha Vida, mecanismo importantíssimo para a garantia de casas populares para famílias periféricas, milhares de pessoas tiveram o sonho da casa própria arrancadas de suas mãos. Bairros como o Jardim Rochdale e o Jardim Elvira têm alta demanda por moradias populares, mas sem uma resposta clara para solução do problema.
A segurança pública, transporte urbano e cultura e lazer, foram outros pontos que tiveram seu rendimento sucumbido pela política de austeridade. Bairros da cidade, como Jardim Roberto e o Jardim Mutinga, registraram aumentos significativos na violência, enquanto espaços culturais, como Centro Cultural Fábrica da Música e o Teatro Municipal, enfrentaram cortes de recursos, limitando a oferta de atividades culturais para a população mais pobre.
Na cidade de Osasco, tudo parece aumentar: a criminalidade, a dificuldade de acesso à moradia, o desemprego e o fechamento de espaços de lazer — enquanto os investimentos públicos despencam sem parar.
Se olharmos a realidade, é evidente o impacto negativo que a falta de investimento público tem no cotidiano da população mais pobre. Mas você já parou para refletir friamente sobre a gravidade da política de austeridade? O corte de recursos em educação, saúde e segurança não resulta apenas em condições precárias para os brasileiros, mas sim, literalmente, a morte de milhares de jovens e crianças pelo país.
O Atlas da Violência de 2022 mostra que, em média, 62 jovens são assassinados por dia no Brasil, a maioria deles moradores de periferias, os mais afetados pela falta de investimento público. Sem acesso adequado à segurança, essas pessoas vivem diariamente sob a ameaça de violência.
Esses infratores, por sua vez, também são vitimas diretas das políticas de austeridade. Um estudo da UFF, Universidade Federal Fluminense, apurou que mais de 90% dos mais de 143 mil adolescentes que cumprem medidas de liberdade assistida, semiliberdade, internação estrita e prestação de serviços à comunidade, não completaram o Ensino Fundamental, e 70% delas vivem em áreas de conflito armado.
Todas essas pessoas sofrem diretamente com a falta de recursos básicos para a garantia de uma vida digna e longe da violência. Se nosso país levasse realmente a sério a condição de vida do povo, em vez de se preocupar em agradar o interesse de uma elite minoritária e pouco interessada com o desenvolvimento da nação, não teríamos em nosso território uma carnificina de jovens brasileiros.
Para mudar esse cenário, é urgente que nos conscientizemos sobre a importância de um Estado forte e engajado com as reais necessidades da população. Precisamos de políticas públicas que garantam acesso à saúde, educação, segurança e moradia digna para todos, sem exceção. A verdadeira transformação começa quando o Estado se torna um aliado da população mais vulnerável, priorizando seu bem-estar e garantindo os direitos básicos como pilares de uma sociedade justa.
Filha de uma das grandes referências femininas de Osasco, Stephanie Rossi seguiu os passos da…
Quando se pensa em videogame, muitos pensam nos consoles Nintendo ou PlayStation e seus icônicos…
O empreendedorismo feminino no Brasil tem crescido significativamente nos últimos anos, com mais de 10…
Nos últimos anos, a educação em Osasco tem passado por transformações significativas. A cidade, localizada…
A presença indígena em Osasco, embora muitas vezes invisibilizada pelo contexto urbano, é uma realidade…
O Março Lilás é uma campanha de conscientização sobre o câncer de colo do útero,…