Machismo e posicionamento feminino: o alto preço pago pelas mulheres ao se posicionarem
Machismo e posicionamento feminino estão diretamente relacionados aos impactos que mulheres enfrentam ao ocupar espaços de fala em uma sociedade marcada pela desigualdade de gênero. Desde cedo, experiências de silenciamento, desvalorização e controle se acumulam e afetam a saúde mental feminina, contribuindo para quadros de ansiedade, depressão, exaustão emocional e sofrimento psíquico, reforçados pela culpabilização das mulheres ao se posicionarem.
O duplo padrão que pune a assertividade feminina
O adoecimento feminino se constrói, em grande parte, nas interações cotidianas que penalizam mulheres quando elas ocupam espaços de fala, autonomia e posicionamento. Esse processo aparece de forma clara no debate público. Um exemplo recente pode ser observado na repercussão da participação de Ana Paula Renault no Big Brother Brasil. Ao expor suas opiniões de maneira assertiva, defender aquilo em que acredita e recorrer à ironia e ao sarcasmo, ela passou a ser rotulada como “chata”, “arrogante” e “insuportável”. No entanto, quando homens adotam comportamentos semelhantes, a sociedade tende a interpretá-los como sinais de força, autenticidade e liderança. Assim, ao romper com a expectativa da docilidade, a mulher sofre desqualificação social e se torna alvo constante de julgamento.
Machismo no ambiente de trabalho: quando o silêncio é exigido
Esse mesmo mecanismo se reproduz de forma explícita no ambiente de trabalho. M.S.S., moradora de Osasco, que preferiu não ser identificada, relata uma situação vivida enquanto atuava na recepção de uma empresa ao lado de um colega homem. Durante um plantão noturno, o colega iniciou uma discussão agressiva com um cliente por divergências políticas. Ao pedir, de forma educada, que ele interrompesse o confronto e mantivesse o respeito, M.S.S. passou a ser alvo da agressividade. Ele direcionou a raiva a ela, elevou o tom de voz, desqualificou-a e afirmou que ela não entendia nada de política por ser mulher. Além disso, segundo o relato, comentários depreciativos, piadas machistas e tentativas recorrentes de colocá-la em posição de inferioridade já faziam parte da rotina.
Instituições que validam a violência
Ao buscar apoio junto à liderança imediata, M.S.S. encontrou minimização e pouca escuta. Somente depois que o cliente entrou em contato com o setor de Recursos Humanos a empresa validou sua versão dos fatos. Como consequência, o colega foi demitido, e a instituição promoveu uma fala interna sobre machismo no ambiente corporativo. Ainda assim, mesmo tendo sido vítima de agressão e desrespeito, M.S.S. relata que se sentiu culpada pela demissão dele. Esse desfecho evidencia como a responsabilização emocional frequentemente recai sobre a mulher, inclusive quando a violência se torna explícita e comprovada.
Culpa feminina e papéis de gênero
Esse sentimento de culpa não surge de forma isolada nem ocasional. A sociedade socializa mulheres para ocupar o lugar da acolhedora, da cuidadora e da mediadora dos conflitos. Espera-se, portanto, que mantenham a harmonia dos ambientes, absorvam tensões e silenciem a própria dor. Quando se posicionam, denunciam ou rompem com esse papel, muitas internalizam a culpa, como se estivessem exagerando ou causando prejuízo a terceiros. Consequentemente, esse conflito interno afeta diretamente a saúde mental e favorece quadros de ansiedade, insegurança e sofrimento psíquico persistente.
Violência simbólica também adoece
Além das agressões explícitas, a violência simbólica também produz adoecimento psicológico. A desqualificação sistemática da fala feminina, o descrédito constante e o julgamento social repetido expõem mulheres a um ambiente de invalidação contínua. Com o tempo, essa exposição pode gerar efeitos semelhantes aos de experiências traumáticas, sobretudo quando instituições e relações de poder legitimam essas práticas.
Saúde mental das mulheres exige mudança estrutural
A saúde mental da mulher que vive sob o impacto do machismo se desenvolve em um contexto de vigilância constante, adaptação excessiva e contenção emocional. Desde cedo, muitas aprendem a medir palavras, controlar reações e minimizar desconfortos para evitar punições sociais. Como resultado, aumentam os índices de ansiedade, exaustão emocional, baixa autoestima e sentimento persistente de inadequação. A desqualificação da fala, a culpabilização quando se posicionam e a naturalização das violências simbólicas produzem sofrimento psíquico crônico, frequentemente tratado de forma individualizada, como se fosse fragilidade pessoal. No entanto, esse adoecimento não indica fraqueza, mas representa uma resposta legítima a um contexto estrutural que invalida, silencia e sobrecarrega mulheres.
Por isso, falar em saúde mental das mulheres sem discutir machismo mostra-se insuficiente. Ampliar o acesso à psicoterapia é fundamental; entretanto, essa medida não resolve o problema enquanto as estruturas que produzem o sofrimento permanecem intactas. Promover saúde mental exige reconhecer o machismo como fator de risco, questionar os papéis de gênero e legitimar a presença das mulheres em espaços de fala, decisão e confronto. Enquanto a sociedade continuar punindo a assertividade feminina e incentivando a internalização da culpa, seguirá tratando o adoecimento das mulheres como um problema individual, quando, na realidade, ele expressa um sintoma coletivo de uma sociedade desigual.