Lipedema: quando a dor não cabe no orçamento
Por muito tempo confundido com obesidade ou falta de cuidado com o próprio corpo, o lipedema é uma doença crônica, progressiva e sem cura, que afeta majoritariamente mulheres. A condição é caracterizada pelo acúmulo desproporcional de gordura, principalmente nas pernas e braços, acompanhado de dor frequente, inchaço, sensibilidade ao toque e sensação de cansaço. Apesar de atingir milhões de brasileiras, o lipedema ainda é pouco diagnosticado — e, quando identificado, esbarra em um problema central: o alto custo do tratamento.
Dados apresentados em reportagem exibida pelo Fantástico indicam que o lipedema atinge entre 10% e 18% das mulheres no mundo. No Brasil, a estimativa é de que ao menos 9 milhões de mulheres convivam com a doença. Embora descrito pela medicina desde a década de 1940, o lipedema só passou a ter um código próprio no Cadastro Internacional de Doenças (CID) em 2022, fator que contribuiu para anos de subnotificação e diagnósticos equivocados.
Na periferia, onde o acesso à saúde já é limitado, conviver com o lipedema significa, muitas vezes, conviver com a dor sem acompanhamento adequado.
Uma doença invisível
O lipedema não surge de forma súbita. A doença costuma se manifestar em períodos de intensas alterações hormonais, como puberdade, gravidez e menopausa. Especialistas apontam que a condição tem forte relação genética: cerca de 60% das mulheres diagnosticadas relatam histórico familiar, o que reforça que não se trata de uma consequência exclusiva de hábitos de vida.
Ainda assim, muitas pacientes passam anos sem diagnóstico, ouvindo que precisam “emagrecer”, “se exercitar mais” ou que a dor é “normal”. Em entrevistas exibidas pelo Fantástico, mulheres relataram conviver com manchas roxas frequentes, dor intensa ao toque e sensação constante de peso nas pernas, sintomas comuns do lipedema e frequentemente desconsiderados no atendimento médico.
A invisibilidade da doença impacta diretamente a vida das pacientes. Além da dor física, há efeitos psicológicos, como o sofrimento emocional, o julgamento constante sobre o corpo e a sensação de culpa por não conseguir “resolver” uma condição que não depende apenas de esforço individual.
Tratamento existe, mas não chega para todas
Embora não tenha cura, o lipedema possui tratamento capaz de aliviar os sintomas e retardar a progressão da doença. As abordagens recomendadas incluem atividades físicas de baixo impacto, como hidroginástica, uso de meias de compressão, alimentação com foco anti-inflamatório e acompanhamento multiprofissional. Em casos mais avançados, procedimentos cirúrgicos podem ser indicados.
O principal obstáculo, no entanto, é o acesso.
Consultas com especialistas, exames específicos, fisioterapia linfática, meias de compressão, acompanhamento nutricional especializado e cirurgias envolvem custos elevados. No Brasil, muitos desses cuidados não estão disponíveis de forma ampla pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o que aprofunda a desigualdade entre quem pode arcar com o tratamento e quem convive com a dor sem assistência adequada.
Na periferia, onde o orçamento doméstico já é limitado, a decisão frequentemente não é sobre tratar ou não a doença, mas sobre garantir necessidades básicas.

O que é possível fazer quando o dinheiro não dá
Mesmo diante das limitações, alguns caminhos são possíveis para quem não tem acesso a tratamentos privados. Pelo SUS, é possível buscar acompanhamento com clínico geral, ginecologista ou angiologista, além de encaminhamentos para fisioterapia e orientações de saúde. Embora esse acompanhamento não seja específico para lipedema, ele pode contribuir para o controle da dor e da inflamação.
A alimentação também desempenha papel importante. A orientação não envolve dietas restritivas ou alimentos caros, mas a redução do consumo de ultraprocessados, açúcar e frituras, priorizando alimentos acessíveis, como arroz, feijão, ovos, legumes da estação e proteínas de menor custo, como frango e sardinha.
A prática de atividades físicas dentro das possibilidades individuais também auxilia no alívio dos sintomas. Caminhadas, alongamentos e exercícios de baixo impacto realizados em casa podem melhorar a circulação e reduzir o desconforto. O objetivo não é estético, mas funcional.
Quando o uso de meias de compressão não é viável financeiramente, medidas simples podem ajudar, como elevar as pernas durante o descanso, evitar longos períodos sentada ou em pé e utilizar roupas que não comprimam a região afetada. São estratégias paliativas, mas relevantes no cotidiano.
Dor física e emocional
Além dos impactos físicos, o lipedema também afeta a saúde mental. A frustração diante da dificuldade de acesso ao tratamento, o preconceito em relação ao corpo e a falta de acolhimento médico interferem diretamente no bem-estar emocional das pacientes. Diante da escassez de atendimento psicológico na rede pública, muitas mulheres recorrem a grupos gratuitos online, onde encontram troca de informações e apoio.
Nesse contexto, o acesso à informação também se torna uma forma de cuidado.
Quando a saúde depende do CEP
Falar sobre lipedema na periferia é discutir desigualdade no acesso à saúde. A existência da doença, por si só, não garante que o tratamento chegue a quem precisa. Quando o cuidado se torna um privilégio, quem não pode pagar aprende a conviver com a dor.
O lipedema não está relacionado à falta de disciplina, nem se resume a uma questão estética. Trata-se de uma condição de saúde que exige atenção, políticas públicas e informação acessível. Enquanto isso não ocorre, milhares de mulheres seguem convivendo com um diagnóstico que pesa não apenas no corpo, mas também no bolso.
Para muitas delas, a dor existe — mas o tratamento não cabe no orçamento.