“Laço” de O Teatro Mágico: reflexões sobre vínculos, afeto e limites

 “Laço” de O Teatro Mágico: reflexões sobre vínculos, afeto e limites
Jornal a Borda

O Teatro Mágico é um grupo musical brasileiro formado em 2003, na cidade de Osasco (SP), criado por Fernando Anitelli. Desde o início, o projeto se caracteriza por reunir elementos do circo, do teatro, da poesia, da música, da literatura, da política e do cancioneiro popular. Além disso, suas composições abordam afetos, vínculos e experiências humanas complexas. É justamente nesse contexto que se insere a canção “Laço”, que dialoga diretamente com um tema sensível à saúde mental: Os relacionamentos (abusivos).

Do ponto de vista da psicologia, esse termo se refere a relações marcadas por desequilíbrio de poder e sofrimento emocional contínuo, podendo envolver controle, manipulação, desvalorização e culpa, mesmo na ausência de violência física. Como consequência, esse tipo de vínculo traz riscos importantes, como ansiedade, depressão, baixa autoestima e a naturalização da dor como parte do amor, o que, por sua vez, dificulta o reconhecimento do abuso e a busca por ajuda.

A música “Laço”, do Teatro Mágico, fala de amor, mas não daquele amor romantizado que tudo aceita e tudo suporta. Logo no início, a letra propõe algo que ainda é difícil para muitas pessoas:

“Se não houver sossego / Pratique o desapego.”

Essa frase, simples e direta, toca em um ponto central da saúde mental. Em outras palavras, relações que causam sofrimento constante, ansiedade e desgaste emocional não deveriam ser mantidas a qualquer custo. Amar não deveria significar viver em estado permanente de tensão. Quando não há sossego, algo precisa ser revisto.

Desapego não é frieza, é cuidado

Na sequência, a letra segue questionando vínculos que existem apenas por hábito, medo ou ilusão:

“Se não houver o além, meu bem / Não há motivo.”

Nos relacionamentos abusivos, é comum que a pessoa permaneça esperando que “um dia melhore”, que o outro mude ou que o amor compense tudo. Nesse sentido, a música convida a olhar para a realidade concreta do vínculo, e não apenas para o que se idealiza. Quando não há crescimento, respeito ou reciprocidade, insistir pode significar adoecer.

Quando o orgulho vira muro

Outro trecho relevante afirma:

“Distância sim, separa menos que orgulho / Precisamos mais de pontes e não muros.”

Aqui, a letra aponta para dinâmicas muito presentes em relações conflituosas, como o silêncio punitivo, a dificuldade de diálogo, as disputas de poder e o orgulho que impede o encontro. Em relações abusivas, esses “muros” costumam aparecer na forma de controle, manipulação emocional ou invalidação do outro.

Pontes, por outro lado, exigem diálogo, escuta e disposição para reconhecer limites, algo que não se sustenta quando apenas um lado carrega o vínculo.

Solidão não é abandono

Mais adiante, um dos versos mais potentes da música diz:

“Podemos ficar juntos / Se soubermos estar só.”

Essa frase sintetiza um princípio básico das relações saudáveis. Pessoas que conseguem estar sozinhas não permanecem em relações por medo, dependência ou vazio. Já nos relacionamentos abusivos, a solidão costuma ser vivida como ameaça, e não como possibilidade de autonomia.

Sob a ótica psicológica, a dificuldade de estar só favorece vínculos de dependência emocional, nos quais a pessoa tolera situações que ferem sua dignidade para evitar o abandono.

O amor como laço e não como prisão

No refrão, a música apresenta sua mensagem central:

“O amor é um laço e não um nó.”

Esse verso funciona quase como uma definição de saúde emocional. Um laço conecta, aproxima e permite movimento. Um nó, ao contrário, aperta, prende e sufoca. Não por acaso, relações abusivas operam como nós: restringem, controlam e retiram a liberdade emocional.

Quando amar significa abrir mão de si, silenciar sentimentos, viver com medo ou culpa, já não se trata de laço, mas de aprisionamento emocional.

Um passo de cada vez

Por fim, a música encerra lembrando:

“É um passo de cada vez.”

Reconhecer padrões nocivos, sair de um relacionamento abusivo ou reconstruir a própria autonomia não acontece de forma imediata. Trata-se de um processo. Esse verso valida algo fundamental: ninguém precisa dar saltos impossíveis, apenas caminhar com consciência.

O que a música nos ajuda a enxergar

“Laço” não romantiza relações que machucam. Ao contrário, propõe maturidade emocional, autonomia e responsabilidade afetiva. Ao afirmar que o amor não deve ser um nó, a música confronta uma cultura que ainda normaliza o sofrimento em nome do amor.

Nesse sentido, a arte funciona como alerta e convite:
amar não deveria doer o tempo todo;
vínculos não deveriam apertar;
e ficar só, às vezes, é mais saudável do que permanecer mal acompanhado.

Reconhecer isso é, acima de tudo, um ato de cuidado com a própria saúde mental.

Foto disponível em: https://musica.uol.com.br/noticias/redacao/2012/10/29/estamos-indo-para-uma-onda-mais-radiohead-eletronico-diz-o-vocalista-d-o-teatro-magico.htm:

Edina Schimitz

Psicóloga e redatora no Jornal Aborda. Escrevo a partir do encontro entre a escuta e a palavra — onde o sentir ganha forma e sentido.

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