Entre a vida e o amor: Gislene enfrentou o câncer de mama durante a gestação e transformou dor em esperança

 Entre a vida e o amor: Gislene enfrentou o câncer de mama durante a gestação e transformou dor em esperança
Jornal a Borda

Após enfrentamento do câncer de mama na gestação, professora transforma luta em missão

Quando ouviu do médico que tinha de três a seis meses de vida, Gislene Vieira Rodrigues não se entregou. Aos 37 anos, professora e psicopedagoga, ela descobriu um câncer de mama já em estágio avançado, com metástase no pulmão. 

O câncer de mama é o tipo mais comum entre mulheres no mundo. Segundo o INCA (Instituto Nacional de Câncer), são esperados 73.610 novos casos por ano no Brasil no triênio 2023-2025. O diagnóstico precoce é crucial: quando descoberto em estágios iniciais, o câncer de mama pode ter até 95% de chance de cura, com tratamentos menos invasivos. 

Por isso, a conscientização sobre o autoexame e a mamografia regular, especialmente para mulheres acima de 40 anos, são essenciais. (Fonte: Ministério da Saúde/INCA, “Controle do Câncer de Mama no Brasil: Dados e Números 2025”).

“Eu decidi que o câncer não ia me derrubar pela cabeça. Eu tinha minha filha, minha família, e ainda queria aumentar a casa com mais amor”, lembra Gislene.

O diagnóstico e o susto

Em 2017, antes de tentar uma nova gestação, Gislene fez todos os exames e ouviu dos médicos que estava tudo bem. Mesmo assim, um desconforto insistente nas costas e nas pernas não a deixava tranquila. Até que, durante um banho, ela sentiu um caroço no seio. A confirmação veio com a mamografia: um tumor agressivo, já espalhado pelo corpo. Ela recebeu as duas confirmações ao mesmo tempo: estava grávida e também com câncer.

A primeira opinião médica foi dura e desanimadora. “Você está em estágio terminal”, ouviu. Mas Gislene buscou outra especialista e, com ela, uma nova chance. “Não seria fácil”, alertou a nova médica, que iniciou o tratamento de urgência com quimioterapia.

“De tudo o que vivi, aquele foi o momento mais difícil. Eu teria que escolher entre a minha vida e a do bebê”, conta.

 

JA: Como você percebeu que havia algo errado com a sua saúde e como foi receber um diagnóstico tão difícil?

GR: Eu sentia dores persistentes nas pernas, costas e coluna, que os médicos insistiam ser psicológicas. Decidi fazer o autoexame durante o banho e encontrei um caroço na mama. Ao receber o diagnóstico de câncer em estágio avançado, a clareza da minha fé foi imediata. Lembro das palavras duras do médico: “É câncer em estágio avançado. Se você tiver um bom convênio, terá três meses de vida ou, no máximo, seis”. Mas eu prometi a Deus não questionar e decidi que não desistiria da vida nem dos meus sonhos, o que me impulsionou a buscar uma segunda opinião, certa de que nada acontece sem propósito.

JA: O que a motivou a buscar uma segunda opinião, mesmo após uma previsão tão difícil?

GR: A certeza de que precisava de um plano de tratamento diferente e a convicção de que Deus não faz nada sem propósito. Eu sabia que precisava lutar.

JA: Como foi descobrir que estava grávida no meio de um tratamento tão delicado?

GR: Na primeira gestação, foi o momento mais difícil de todo o processo, pois tive que escolher entre a minha vida e a do bebê. Eu me recusei a fazer o aborto e confiei a Deus. Infelizmente, meu bebê partiu dias antes de eu iniciar a quimioterapia. Na segunda gestação, não tive medo, pois já tinha a certeza de que Deus estava cuidando de tudo.

JA: Que parte do tratamento foi a mais difícil: física ou emocionalmente?

GR: Todos os processos são extremamente difíceis, mas saber que minha gestação não iria concluir talvez tenha sido mais complexo. Lembrando que eu já era mãe de uma linda menina e que sonhávamos com a chegada de uma irmã ou de um irmãozinho.

JA: O que o câncer te ensinou sobre a vida e sobre o tempo?

GR: O câncer me ensinou que a vida é um presente que temos que usufruir com muito amor a nós e ao nosso próximo. Afinal, o diagnóstico traz consigo a consciência da finitude, não para ser tomado como medo, mas sim que somos muito mais do que um diagnóstico ou do que temos. O ser humano está tão focado em construir algo para o futuro e esquece: o futuro não existe definido. O que existe é o presente, e esse tem que ser vivido de forma consciente, com plantio baseado no amor e na caridade. Afinal, quando o que plantamos florescer, se estivermos aqui seremos agraciados, e se não, teremos feito o que nos foi determinado. No presente está tudo que temos e somos.

JA: Que mensagem você deixaria para outras mulheres que estão enfrentando o mesmo diagnóstico?

GR: O diagnóstico não define quem você é. Procure unir a ciência e sua fé. Isso fortalece você. Aceite ajuda! (Aceite o tratamento com carinho, pois é difícil, mas pode ajudar a salvar sua vida). Use todas as oportunidades que a ciência disponibilizar. Procure fortalecer sua espiritualidade. E acredite em você! Entre alegria e tristeza, medo e coragem, cansaço e força, crenças e descrenças e esperança, a vida acontece. Que cada um encontre o seu presente.

 

Para além do diagnóstico, o cuidado com o câncer de mama é contínuo. O rastreamento precoce é a melhor defesa: o Ministério da Saúde garantiu o acesso à mamografia no SUS para mulheres de 40 a 49 anos sob demanda, e manteve a recomendação de rastreamento ativo para a faixa etária de 50 a 69 anos (agora ampliada até os 74 anos). O autoexame e o conhecimento do próprio corpo são a primeira linha de defesa em todas as idades. 

Além disso, a prevenção passa pela adoção de um estilo de vida saudável (alimentação balanceada e exercícios regulares) e pela busca imediata por avaliação médica em caso de qualquer alteração na mama. Lembre-se, o suporte psicológico e familiar é vital, especialmente em quadros complexos como o enfrentado pela professora e psicopedagoga.

Com a cura, Gislene transformou sua luta em missão. Hoje, ela dedica-se a dar diversas palestras sobre sua trajetória, motivando outras mulheres a buscarem a força na fé, na ciência e no amor, e a lembrarem que a esperança é o primeiro passo para a superação de qualquer diagnóstico.

 

Kamila Cristina Moraes

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