Empreender na periferia: mulheres de Osasco resistem à crise

 Empreender na periferia: mulheres de Osasco resistem à crise

Por Nahiana Marano

 

Empreender na periferia é mais do que uma alternativa de sobrevivência: é um gesto de afirmação, identidade e resistência. Em Osasco, na Grande São Paulo, mulheres têm transformado suas trajetórias pessoais em movimentos coletivos de renda e autoestima, desafiando a desigualdade por meio da criação. Esse é o caso de As Vieiras Black, marca de acessórios com estética afro-brasileira que nasceu do reencontro de sua fundadora com a ancestralidade e se tornou um projeto de vida.

“Depois da minha transição capilar, me vi diante de um espelho que refletia mais do que aparência: refletia identidade, força e pertencimento”, conta a criadora da marca, Priscila Vieira. O que começou como uma experiência pessoal, virou um empreendimento com impacto social, reunindo moda, afeto, oficinas culturais e desfiles protagonizados por mulheres da periferia.

 

Superando desafios com criatividade

A trajetória não foi fácil. Com poucos recursos e enfrentando o preconceito racial e territorial, empreender na periferia significou errar, improvisar e resistir. “Empreender na quebrada é começar com quase nada”, resume Priscila. Ainda assim, a marca se firmou como principal fonte de renda e hoje alicerça um sonho maior: criar um espaço físico que também seja centro cultural e ponto de oportunidades para outras mulheres pretas.

Em um cenário marcado pela informalidade, histórias como essa se multiplicam. Segundo o IBGE, em 2023, 43% das mulheres que estavam no mercado de trabalho nas periferias da Região Metropolitana de São Paulo atuavam em ocupações informais, muitas delas por conta própria. Em Osasco, a informalidade é ainda mais sentida entre as mulheres negras, que enfrentam taxas de desemprego superiores à média e são forçadas a reinventar a renda a partir do que têm à disposição.

 

Redes de apoio que fortalecem

“A comunidade me construiu como empreendedora”, afirma a entrevistada. O apoio veio dos coletivos de mulheres pretas, das feiras locais, do boca a boca e da vizinha que comprou o primeiro turbante. Ao lado dessas redes, ela encontrou suporte em projetos sociais e cursos de formação, que ajudaram a profissionalizar o trabalho e fortalecer o negócio.

Para ela, empreender na periferia é um “grito de autonomia”. É meio de sustento, mas também de potência simbólica: mostra que a criação está viva e pulsante nos territórios marginalizados. Empreender nesses contextos é, além de uma alternativa econômica, uma forma de criar novas narrativas sobre o lugar de onde se vem — de transformar estigma em orgulho. É resistir com beleza e ancestralidade, como ela mesma define. E é, sobretudo, um convite às outras mulheres: “Comece com o que você tem. Não espere estar tudo perfeito para agir. A quebrada é feita de redes, e quando uma mulher preta se levanta, muitas outras se levantam com ela.”

 

Criatividade como forma de cura

Na construção de um futuro mais digno, iniciativas como As Vieiras Black provam que a periferia é também lugar de criação, cultura e visão de futuro. E que empreender pode ser, acima de tudo, um ato de cura coletiva e de resistência cotidiana.

Nahiana Marano

É graduada e mestre em Direito, atua na Consultoria Técnica Legislativa da Assembleia Legislativa do Ceará, com foco em direitos humanos. Já integrou a coordenação de direitos humanos da UNILAB e foi suplente da presidente da Comissão de Estudos sobre Violência de Gênero na instituição. Autora de artigos acadêmicos, une experiência técnica e compromisso social.

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