Corpo feminino na política: quando vira arma de campanha
Mesmo com avanços na representatividade, o corpo feminino continua sendo fator de avaliação de mulheres na política. Além disso, em vez de serem reconhecidas por propostas, trajetórias e ideologias, muitas candidatas enfrentam julgamentos sobre aparência, roupas e comportamento, que ofuscam suas ideias.
A beleza como forma de controle social
A autora Naomi Wolf, em O mito da beleza, mostra que a cultura patriarcal transformou a estética em instrumento de controle das mulheres. Consequentemente, conforme elas conquistam novos espaços, aumenta a pressão para manter um padrão de beleza “perfeito”. Assim, o corpo feminino funciona como substituto simbólico do poder: enquanto os homens são valorizados por feitos e competências, as mulheres ainda são julgadas pelo que vestem ou pelo físico.
Aparência como pauta eleitoral
Nas eleições, o corpo feminino se torna alvo de legitimação ou ataque político. Por exemplo, um estudo do Utah Women & Leadership Project (2021) analisou 25 anos de cobertura jornalística e concluiu que candidatas são mais avaliadas pelo corpo, vida pessoal e tom emocional do que por suas propostas.
Enquanto isso, os homens seguem como padrão neutro de liderança, reforçando a ideia de que o poder político ainda é de gênero masculino.
Casos no Brasil
A trajetória de Manuela d’Ávila, ex-deputada e candidata à Presidência em 2018, ilustra bem esse cenário. Durante a carreira, ela foi chamada de “musa da Câmara” e teve seu corpo feminino transformado em pauta pública. No entanto, em entrevista à Marie Claire (2018), Manuela relatou assédio, críticas sobre corpo e comentários sexistas que deslegitimavam sua atuação política. “A sociedade machista valora as mulheres pelo corpo. Eu era a gorda que depois virou musa. Quando questionava esse rótulo, era hostilizada”, afirmou.
Pesquisadores observaram situação semelhante em 2022. Um levantamento do projeto MonitorA — desenvolvido pelo InternetLab, Revista AzMina e Núcleo Jornalismo — mostrou que mais de um terço das ofensas dirigidas a Simone Tebet (MDB) e Soraya Thronicke (União Brasil) após o primeiro debate televisivo tinha teor misógino.
Segundo a antropóloga Fernanda Martins, diretora do InternetLab, ataques digitais contra mulheres crescem em momentos de grande visibilidade, especialmente quando estimulados por lideranças masculinas. Esses ataques criticavam o corpo feminino, roupas e expressões, buscando desqualificar intelecto e moral das candidatas.
O desafio de 2026: ideias acima da aparência
Com as eleições de 2026 se aproximando, novas mulheres devem se lançar na disputa. Por outro lado, o desafio será o mesmo: que o corpo feminino deixe de ser critério e que suas ideias sejam ouvidas.
Mais do que escolher quem ocupa o poder, a sociedade precisará refletir quem tem o direito de representá-lo sem ser avaliada apenas pela aparência. Enquanto isso, o corpo feminino continuar sendo usado como arma de ataque ou instrumento de fiscalização fará com que o debate político siga reproduzindo o machismo que diz combater.