Como o carnaval vira renda e dá visibilidade à periferia de São Paulo?
Por Fernanda Matos — São Paulo
Glitter, som alto e criatividade. Para além da festa, o carnaval de rua em São Paulo também é sinônimo de trabalho e geração de renda, especialmente nas periferias da cidade, onde a cultura sempre foi ferramenta de sobrevivência.
Enquanto milhões de pessoas ocupam as ruas, moradores das quebradas aproveitam a alta demanda por comida, bebida, fantasias e acessórios para transformar saberes locais em negócio. Geladinhos alcoólicos, roupas artesanais, adereços feitos à mão e serviços improvisados se tornam fontes de renda que ajudam a complementar salários ou, em alguns casos, sustentam o ano inteiro.
Criatividade que nasce na periferia
A lógica é simples e antiga: usar o que se tem, reinventar materiais e transformar talento em dinheiro. Em muitas periferias, o carnaval funciona como uma vitrine da economia criativa local, aquela que nasce fora do mercado formal, mas movimenta cifras reais.
“Na quebrada, a gente aprende cedo a se virar”, resume um vendedor de bebidas artesanais da Zona Leste, que prefere não se identificar. “O carnaval é quando dá pra fazer um dinheiro que, às vezes, o mês inteiro de trabalho formal não dá.”
Para muitos microempreendedores periféricos, a folia não é apenas um “bico”. É estratégia financeira. O dinheiro levantado durante o pré-carnaval, carnaval e pós-carnaval ajuda a pagar dívidas, investir em equipamentos, sustentar famílias e até bancar outros projetos ao longo do ano.
“A gente trabalha muito mais nesse período, mas compensa”, conta uma artesã da Zona Sul que produz acessórios carnavalescos. “Tem ano que o que eu ganho no carnaval segura minha marca por meses.”
Esse movimento também revela uma realidade comum nas periferias que é a informalidade como resposta à falta de oportunidades no mercado tradicional. Sem acesso fácil a crédito, espaços de venda ou apoio institucional, esses empreendedores criam suas próprias redes, vendendo nos blocos, pelas redes sociais ou no boca a boca.
“A periferia sempre produziu cultura, mas nem sempre foi reconhecida”, afirma um pesquisador de cultura urbana. “No carnaval, esses corpos, essas estéticas e esses saberes ocupam o espaço público e mostram que também são economia.”
Blocos formados nas quebradas, DJs independentes, estilistas periféricos e vendedores ambulantes ajudam a construir uma festa que vai além do entretenimento, é também resistência, e circulação de dinheiro dentro das próprias comunidades.
Apesar da força criativa, os desafios são muitos. Falta política pública, capacitação, acesso a crédito e reconhecimento legal para quem trabalha de forma autônoma. Ainda assim, a periferia segue criando soluções.
“Oportunidade pra gente nunca vem pronta”, diz uma empreendedora da Zona Norte. “A gente cria.”
No meio do glitter e suor, o carnaval revela uma verdade antiga, quando o Estado falha, a periferia inventa caminhos. E transforma festa em trabalho, cultura em renda e ocupação em futuro.