Canetas emagrecedoras: solução médica ou pressão estética?
A recente decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de proibir a importação de canetas emagrecedoras que ainda não possuem registro no Brasil trouxe à tona um debate que vai além da regulamentação de medicamentos. A medida escancara um problema social: o uso indiscriminado de remédios para emagrecer impulsionado pela pressão estética e pela desinformação.
De acordo com a Anvisa, a proibição tem como objetivo proteger a saúde da população, já que muitos desses produtos vinham sendo importados de forma irregular, sem prescrição médica e sem comprovação de segurança. Mesmo assim, as canetas se popularizaram rapidamente, principalmente por meio das redes sociais, onde são apresentadas como solução rápida para perda de peso.
Quando o medicamento vira promessa
As canetas emagrecedoras foram desenvolvidas para tratar condições específicas de saúde, como diabetes, e não para fins estéticos. No entanto, passaram a ser vendidas como um atalho para o corpo ideal, reforçando a ideia de que emagrecer é uma obrigação e não uma escolha ligada à saúde.
Esse discurso ignora os riscos do uso sem acompanhamento médico, como efeitos colaterais, reações adversas e impactos na saúde física e emocional. A decisão da Anvisa reforça que medicamento não é milagre, nem deve ser tratado como produto comum de consumo.
Desigualdade no acesso e risco maior
A proibição também evidencia uma desigualdade já conhecida. Enquanto pessoas com maior poder aquisitivo conseguem acompanhamento médico e acesso regular aos tratamentos, outras recorrem à importação ilegal, à compra pela internet ou a indicações informais.
Na prática, quem tem menos acesso à saúde é quem mais se expõe ao risco. A circulação dessas canetas fora do controle sanitário afeta diretamente a população periférica, onde faltam informação, acompanhamento e políticas públicas eficazes de prevenção.
Pressão estética disfarçada de autocuidado
O sucesso das canetas não pode ser analisado apenas pelo viés médico. Ele está diretamente ligado a uma cultura que associa magreza a sucesso, disciplina e valor social. Em nome do “autocuidado”, corpos são constantemente cobrados a mudar, muitas vezes sem considerar limites, contexto social ou saúde mental.
Emagrecer passou a ser vendido como solução para tudo, quando, na realidade, saúde envolve alimentação adequada, acesso ao SUS, condições dignas de vida e informação de qualidade.
Informação também é saúde
Ao proibir a importação de medicamentos não regulamentados, a Anvisa faz um alerta importante: o uso de remédios sem controle coloca vidas em risco. Mais do que discutir emagrecimento, é necessário questionar por que soluções rápidas ganham tanto espaço em um país onde o acesso à saúde ainda é desigual.
Falar sobre canetas emagrecedoras não é incentivar o uso, mas promover consciência. Saúde não deve ser guiada por padrões estéticos nem por promessas fáceis, e sim por cuidado, responsabilidade e direito à informação.