Batalhas de rima como escolas políticas da periferia: O que se aprende nas batalhas de rima que a escola não ensina

 Batalhas de rima como escolas políticas da periferia: O que se aprende nas batalhas de rima que a escola não ensina
Jornal a Borda

Por: Ellen L. Pedrosa

Das ruas para os palcos, saindo de rodas em praças e calçadas para as multidões, as batalhas de rima ganharam cada vez mais espaço com o passar dos anos. Por meio do improviso, da criatividade, da técnica e do pensamento rápido, MCs se enfrentam verbalmente em duelos, formulando raps ou traps sobre temas específicos ou atacando liricamente seus oponentes.

Essas batalhas surgiram como parte da cultura do hip-hop, evoluindo através das famosas “diss-tracks” ou músicas de “ataque” e também confrontos de improvisos nas ruas. Após chegar ao Brasil nos anos 90 e conquistar espaço através do rap, as batalhas de rima ganharam mais espaço através de eventos organizados como a Batalha do Real, no Rio de Janeiro, em 2003.

Hoje em dia o hip-hop e as batalhas de rima criaram raízes em nossa cultura, fazendo parte de um estilo de expressão musical que saiu das margens da sociedade e ganhou papel de destaque. Mais que rimas vazias e palavras jogadas ao vento, essas batalhas se tornaram verdadeiras escolas políticas, escancarando a opressão, a desigualdade e as injustiças que grande parte da população brasileira está sujeita diariamente. 

Bem mais do que apenas uma forma de entretenimento, essas batalhas dão voz aos esquecidos, aos marginalizados, aos que foram calados. É através dela que a periferia entende melhor sobre a realidade que os cerca, sobre o sistema ao qual estão inseridos e sobre as alegrias e dores que, apesar de serem particulares, acabam por se tornar um bem comum.

Denilson Ramos Pereira, o Mano Lyee, um dos pioneiros do hip-hop na Zona Oeste de São Paulo e educador que há anos ministra aulas e palestras sobre hip-hop e batalhas de rima, afirma que as batalhas de rima podem sim ser entendidas como um espaço educativo. “Elas proporcionam um ambiente onde os participantes podem desenvolver habilidades como criatividade, improvisação, pensamento crítico e comunicação eficaz. Além disso, as batalhas de rima muitas vezes abordam temas sociais e políticos relevantes, o que pode contribuir para a formação crítica e conscientização dos participantes e do público”.

Para ele, as escolas não reconhecem os saberes produzidos nas periferias, desvalorizando os “fazedores de cultura” locais. Mano Lyee usa como exemplo o próprio movimento do hip-hop que, apesar de possuir grande força na luta contra o sistema de ensino tradicional e a cultura dominante e apoiar os professores e a riqueza cultural e intelectual das comunidades, ainda tem pouco espaço nesses ambientes de ensino. Ele afirma que a mudança começa na inclusão e no reconhecimento da diversidade cultural e intelectual dos alunos por parte da escola. Para ele, essa incorporação só seria possível através de temas e perspectivas de comunidades marginalizadas no currículo escolar e da valorização da cultura e também das experiências dos alunos.

Mano Lyee também acredita que as batalhas de rima podem proporcionar um aprendizado político e social mais prático e contextualizado do que as escolas tradicionais. “Os participantes aprendem a lidar com a crítica, a argumentar e a defender suas opiniões de forma criativa e eficaz. Além disso, as batalhas de rima muitas vezes abordam temas como desigualdade social, racismo, sexismo, feminicídio, machismo e outros problemas que afetam as comunidades marginalizadas, o que pode contribuir para a conscientização e a formação crítica dos participantes, o resgate da nossa ancestralidade e a manutenção da memória negra”. 

Segundo ele, a cultura do hip-hop, com foco especial para as batalhas de rima, contribui para a formação cidadã ao proporcionar um espaço para a expressão e a conscientização política e social. “As batalhas de rima permitem que os participantes expressem suas opiniões e sentimentos sobre temas relevantes e desenvolvam habilidades como pensamento crítico, criatividade e comunicação eficaz” complementa. “Além disso, a cultura do hip-hop valoriza a identidade e a cultura, o que pode contribuir para a formação de uma identidade cidadã mais inclusiva e consciente”.

A política, descrita por muitos como a “arte do bem comum”, é essencial para a manutenção de uma sociedade que busca a igualdade. Se politizar é mais do que uma forma de entender sobre o Estado que nos rege, é um ato de resistência. Seja nas rodas de praças ou nos palcos, seja para um pequeno grupo ou para grandes multidões, é inegável que as batalhas de rima contribuem para a conscientização e formação crítica dos que dela participam, dando espaço a opiniões e saberes que, muitas vezes, são excluídos pelas grandes instituições de ensino. 

Os MCs utilizam sua influência e seu poder de fala para alcançar e educar os mais jovens, criando verdadeiras escolas políticas dentro de uma roda de rima. Ao ocupar um espaço que muitas vezes a escola deixa vazio, essas batalhas escancaram que a ausência do Estado não se resume à falta de estrutura, mas também a escolhas políticas. Uma população leiga é uma população subserviente, que não questiona o sistema em que está inserida. E as batalhas de rima existem justamente para romper esse ciclo.

Ellen L. Pedrosa

Apaixonada por cultura, arte e por contar histórias que conectam. Meu objetivo é exercer um jornalismo mais justo e inclusivo para a sociedade.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *