Blackface e Minstrel Show: a história do espetáculo que transformou racismo em entretenimento.

 Blackface e Minstrel Show: a história do espetáculo que transformou racismo em entretenimento.
Jornal a Borda

Durante o século XIX, os Estados Unidos assistiram ao surgimento de um tipo de entretenimento que moldaria a cultura do país por gerações: o minstrel show. Foi esse formato que transformou o blackface (a prática de retratar pessoas negras de forma caricatural) em um fenômeno nacional. O que começou como um recurso teatral isolado tornou-se um dos símbolos mais duradouros do racismo na história do entretenimento.

O início de tudo: quando surgiu o blackface?

Os primeiros registros do blackface aparecem na Europa dos séculos XVII e XVIII. Em peças inglesas, atores brancos escureciam o rosto com cortiça queimada para interpretar personagens africanos, quase sempre servos ou figuras exóticas. Embora ainda não fosse uma prática centralizada no racismo, já trazia estereótipos evidentes.

Nos Estados Unidos, porém, essa técnica ganhou contornos abertamente depreciativos. O primeiro nome associado ao blackface moderno foi Thomas D. Rice, nos anos 1820. Inspirado de forma distorcida em um homem negro com deficiência física que havia visto cantar no Sul, Rice criou o personagem Jim Crow.

Com o rosto pintado, lábios exagerados e um dialeto inventado, Rice encenou a dança cômica Jump Jim Crow, que se tornou um fenômeno nacional. A imprensa chegou a afirmar que os personagens mais populares da época eram a Rainha Vitória e Jim Crow.

Esse momento é considerado o marco que levou o blackface da improvisação teatral à fama pública.

Se Thomas Rice deu forma ao blackface, os minstrel shows o transformaram em um espetáculo completo. Criado na década de 1830 e consolidado a partir de 1843, o formato misturava música, dança, comédia e paródias. E todos esses elementos eram conduzidos por artistas brancos em rostos pintados, reforçando traços grotescos para representar pessoas negras escravizadas.

Os teatros lotavam. Famílias inteiras iam assistir. O minstrel show se tornou tão popular que muitos o consideraram a primeira forma de entretenimento genuinamente norte-americana.

Negros eram retratados como preguiçosos, tolos, supersticiosos, infantilizados, violentos ou ingênuos. Foi assim que o *blackface* se tornou, para grande parte da população branca, a principal referência visual e cultural sobre pessoas negras — uma representação completamente distorcida e desumanizante.

Os minstrels criaram personagens que se tornaram arquétipos duradouros na cultura mundial, como:

  • o “Sambista”, sempre sorridente e tolo;

  • o “Dândi negro”, arrogante e motivo de riso;

  • a “Mãe Preta”, servil e afetuosa;

  • o “Preto Velho”, sábio, resignado e submisso;

  • o mulato hipersexualizado;

  • o soldado negro ridicularizado.

Essas caricaturas ultrapassaram o palco e se espalharam pela publicidade, pela literatura infantil, pelos desenhos animados e, mais tarde, pelo cinema. A figura mais simbólica desse período foi Al Jolson, protagonista de O Cantor de Jazz (1927), o primeiro filme sonoro da história. Sua imagem — rosto escurecido, lábios brancos e expressões exageradas — marcou gerações.

Apesar das críticas crescentes de movimentos sociais, o sucesso de Jolson consolidou o blackface como linguagem visual recorrente na cultura americana.

No fim do século XIX, o minstrel show perdeu espaço para outros formatos de entretenimento, como o vaudeville. Apesar disso, apresentações amadoras continuaram a ocorrer em escolas, universidades e grupos comunitários até meados dos anos 1960.

Somente com o avanço do movimento pelos direitos civis esse tipo de representação passou a ser visto de forma ampla e inequívoca como um símbolo de desumanização racial.

Fontes:

NABUCO, Joaquim. A escravidão: o mal nacional. São Paulo: Edições Livre, 2024.
BLACK-FACE. About blackface. Disponível em: https://www.black-face.com/about.htm. Acesso em: 19 dez. 2025.
BLACKPAST. BlackPast.org – Online Encyclopedia of African American and Global African History. Disponível em: https://blackpast.org/. Acesso em: 19 dez. 2025.
ABEL ANÁLISES. Episódios Mais PESADOS dos Desenhos Animados. YouTube, 15 out. 2025. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4PQVNv5dLg8. Acesso em: 19 dez. 2025.
MORRIS, Tim Brooks. The Blackface Minstrel Show in Mass Media: 20th Century Performances on Radio, Records, Film and Television. Jefferson: McFarland, 2019.

Kamila Cristina Moraes

2 Comments

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