Hortas urbanas viram empreendimentos sustentáveis na quebrada

Por: Nahiana Marano
Iniciativas como o Plantar em Casa e a Erva Rasteira Agroecologia mostram que cultivar plantas pode gerar renda, saúde e aprendizado coletivo
Hortas urbanas não são apenas espaços de cultivo, mas verdadeiros laboratórios de criatividade e empreendedorismo. Por isso, iniciativas como o Plantar em Casa, de Carlos Alberto ou Toquinho, como é conhecido, e a Erva Rasteira Agroecologia, de Daniel Querino, transformam o plantio em oportunidades econômicas e comunitárias, conectando pessoas e fortalecendo a quebrada.
Da uva ao YouTube: a história do Plantar em Casa
Carlos, morador de Jandira e criador do canal Plantar em Casa, trabalhava com eventos, montando palcos, telões e filmagens, antes de descobrir a paixão pela agroecologia. “Acompanhar aquele pé de uva crescendo, colocando cachos, me acalmava. Quando surgiu uma doença na planta, comecei a buscar ajuda e encontrei pessoas que ensinavam de forma voluntária. Foi aí que as plantas passaram a ser minha terapia”, lembra.
Com o tempo, o hobby virou compartilhamento: ele abriu sua casa para encontros mensais com vizinhos interessados em fruticultura e plantas medicinais. Com a chegada da pandemia, porém, foi preciso se reinventar. Assim, migrou para as redes: o canal no YouTube cresceu e passou a reunir pessoas de diferentes lugares, que viam na agroecologia não apenas uma forma de plantar, mas também de mudar hábitos.
Para ele, o cultivo é mais do que técnica: é saúde mental, é criar comunidade. Hoje, além dos vídeos, ele mantém aulas presenciais, recebe visitantes em sua chácara em São Roque e segue compartilhando conhecimento.
Erva Rasteira: agroecologia como prática coletiva
Enquanto Carlos se conectava às plantas pela uva, Daniel seguia outro caminho. Em 2016, após um curso de sustentabilidade, iniciou sua atuação em projetos socioambientais e deu vida à Erva Rasteira Agroecologia.
Formalizado como microempreendedor, Daniel estruturou atividades como resgatar plantas frutíferas nativas da Mata Atlântica, produzir mudas, construir hortas pedagógicas em escolas, montar mini cisternas e oferecer assistência técnica a agricultores e coletivos culturais.
Dessa forma, seu trabalho não se limita ao cultivo, mas se expande para a educação e a regeneração ambiental. “A gente trabalha para introduzir soberania alimentar saudável e regenerar áreas degradadas, mas também para gerar renda de forma justa”, explica.
Além disso, ele participa da Cooperativa Terra e Liberdade, que reúne agricultores ligados à reforma agrária e à agrofloresta. Essa rede garante certificação e mercado para produtores, ampliando a biodiversidade e fortalecendo a economia local.
Este ano, Daniel também colaborou no projeto Sabedoria Matuta, financiado pela Lei Aldir Blanc, que combinou artesanato com fibras de bananeira, vivências culturais e geração de renda. Segundo ele, foi possível conectar pessoas, valorizar saberes e transformar o que era sobra em oportunidade.
Renda, saúde e comunidade
Nesse contexto, cada um a seu modo, Carlos e Daniel mostram como as hortas urbanas podem ser alternativas viáveis de empreendimento nas periferias urbanas. Para Carlos, a renda vem de forma indireta: parcerias, anúncios e até hospedagens simples oferecidas para quem deseja aprender na prática. Já Daniel combina as vendas de frutas e mudas com oficinas, feiras e aulas em escolas.
Apesar disso, ambos enfrentam desafios comuns: a falta de incentivos públicos, a dificuldade de mão de obra e a pressão do mercado imobiliário sobre áreas verdes. Ainda assim, eles destacam que a força comunitária é o que sustenta seus projetos.
“Quando alguém descobre que pode ter uma planta medicinal em casa e cuidar da própria saúde, isso muda vidas”, destaca Carlos. Ao mesmo tempo, Daniel reforça: “Agroecologia é produzir alimento de qualidade perto da cidade, sem veneno, mas também é combater o analfabetismo ecológico e criar pertencimento”.
Plantar é também sonhar
Em meio às dificuldades, os sonhos também brotam. Carlos deseja expandir seu espaço em São Roque e transformá-lo em uma escola agroecológica acessível. Daniel, por sua vez, sonha em trabalhar coletivamente para regenerar áreas degradadas e inserir jovens no mercado de trabalho sustentável.
Dessa forma, as hortas urbanas provam que plantar é mais do que produzir alimentos: é semear autonomia, criar redes e transformar o futuro a partir da quebrada.